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O penoso exercício da sobrevivência
Tema de Fundo - Tema de Fundo
Escrito por Redação  

A cada ano que passa o poder de compra dos moçambicanos tem vindo a decrescer desenfreadamente, e (sobre)viver apenas com o que se ganha mensalmente nunca foi uma tarefa fácil para a maior parte dos assalariados, pois ajustar o orçamento doméstico à subida generalizada do preço dos produtos de primeira necessidade tornou-se numa missão (quase) impossível. Face ao cenário, os trabalhadores procuram alternativas ao emprego para as despesas com transporte, água, luz, saúde e educação dos filhos.

Alimentação, renda, transporte, luz e água são as principais despesas de grande parte dos trabalhadores. Porém, o salário que a maioria deles aufere não é suficiente para suprir tais necessidades, até porque o poder de compra do consumidor está cada vez mais débil, obrigando- o a fazer malabarismo de modo a garantir o sustento diário do seu agregado familiar, geralmente constituído por, pelo menos, cinco pessoas.

Com o objectivo de encontrar uma resposta à questão “como sobrevivem os trabalhadores moçambicanos com o pouco que ganham?”, @ Verdade, primeiro, pesquisou os preços dos bens de primeira necessidade, e depois aproximou-se dos assalariados.

Restringimos o nosso trabalho às cidades de Nampula, Maputo e Matola, e o levantamento revela um quadro preocupante: os consumidores nacionais são arrastados numa espiral de dificuldades sem fim, uma vez que os preços dos produtos estão sistematicamente a subir. Ou seja, constatámos que, apesar de terem rendimentos mensais diferentes, todos passam pelo mesmo sufoco.

A (dura) realidade

O custo de vida está cada vez mais alto para o trabalhador moçambicano nas principais cidades do país, e não só. A título de exemplo, na cidade de Nampula, desde o mês de Janeiro até o presente momento, houve um aumento a nível do custo de vida, particularmente nos transportes urbanos em 100 porcento, ou seja, dos cinco meticais anteriormente praticados para os actuais 10 meticais, verificando-se ainda o encurtamento das distâncias.

Os produtos alimentares de primeira necessidade, nomeadamente tomate, arroz, cebola, cenoura, repolho, batata reno, entre outros, também registaram um aumento na ordem de 50 a 300 porcento.

No princípio do segundo semestre do ano passado, a inflação chegou a atingir dois dígitos ao fixar-se acima de 14 porcento, tornando mais débil do que já estava o poder de compra dos moçambicanos, que se viram sufocados com o custo de vida. 2011 foi um ano difícil para os moçambicanos, pois, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas (INE), a subida de preços atingiu 3.4 porcento – a maior escalada de custo de vida dos últimos anos – e os alimentos tiveram um peso importante.

No princípio deste ano até este momento, o tomate custava 30 meticais o quilo, o amendoim era comercializado a 39 meticais, a batata reno (35MT), o peixe (70MT), a cebola (37 MT) e o óleo alimentar (75MT/litro). Segundo o INE, o preço do tomate subiu (28,6%), do coco (44,2%), do frango vivo (10,0%), do peixe fresco congelado (8,4%), da cebola (7,2%), da batata reno (7,3%) e do amendoim (3,0%), o que contribuiu no total da inflação mensal com cerca de 2,42 pontos percentuais positivos.

Como eles sobrevivem?

Artur Olímpio Carnia, de 31 anos de idade, é guarda da Casa Provincial de Cultura de Nampula. O seu salário mensal é de 2.450 meticais, mas, devido aos descontos de segurança social, aufere 2.200MT. “Quando recebo começou por pagar as dívidas contraídas ao longo do mês para garantir o sustento da minha família, e o resto do valor compro um saco de arroz ou farinha de milho de 25 quilogramas, 5 litros de óleo e alguns quilos de peixe seco”, afirma.

Todos os meses, quando o salário lhe chega às mãos, Carnia é obrigado a fazer “malabarismos” de modo a ajustar o seu orçamento doméstico às necessidades básicas de casa. O seu ordenado é dividido da seguinte maneira: despende mil meticais para a aquisição de um saco de 25kg de arroz e de farinha de milho que custam 600 e 390 meticais, respectivamente, 290 para comprar 5 litros de óleo, 250 para pagar as contas de água e luz, 60 meticais para peixe seco (papaim). Para a alegria dos filhos, Carnia “abdica” de 300 meticais para comprar um frango e três quilogramas de feijão-manteiga.

Com o salário que aufere, Artur Carnia não consegue custear as despesas de pelo menos 15 dias. Refira-se que o dinheiro que ganha não é suficiente para suprir as necessidades com transporte, roupa, saúde e educação dos seus filhos. “O meu ordenado é insignificante, uma vez que acaba no mesmo dia que recebo. Muitas vezes, as minhas dívidas superam o meu salário, razão pela qual tenho de arranjar outros meios para garantir o sustento da minha família”, diz.

À semelhança de Artur Carnia estão outras centenas de trabalhadores moçambicanos que têm de contrair dívidas ou arranjar uma alternativa ao emprego para que não falte pão na sua mesa.

“A minha sorte é que nem sempre há doentes na família, pois a minha vida seria mais difícil. Mas quando há casos de doenças peço ajuda aos amigos ou familiares”, conta e acrescenta que com o salário que ganha não consegue satisfazer as necessidades do dia-a-dia. Em alguns dias do mês Artur e o seu agregado familiar vêem-se privados de algumas refeições.

“Na verdade, com o meu rendimento mensal apenas dá para garantir almoço e jantar, mas, quando recebo visitas, a situação fica péssima, pois somos forçados a ter uma refeição por dia”, lamenta o guarda que acredita que a prostituição e a criminalidade que têm vindo a ganhar espaço na sociedade moçambicana são fruto de falta de políticas que visam reduzir o custo de vida: “Aquelas mulheres que vendem sexo e os assaltantes não o fazem por prazer, mas devido à falta de dinheiro para sustentar as suas famílias”.

A situação financeira de Artur e de outros trabalhadores é reflexo da débil economia do país. Regra geral, os assalariados, embora com mais de cinco salários mínimos, passam pelas mesmas necessidades. Indivíduos que auferem um valor igual ou superior a 20 mil meticais têm as mesmas dificuldades. Face a esta realidade, os moçambicanos procuram outras alternativas ao emprego. A título de exemplo, Artur Carnia teve de aprender a consertar sapatos para poder fazer face às necessidades que a vida impõe.

Nas horas vagas ele trabalha como sapateiro e afirma que no princípio a situação era bem melhor, pois tinha muitos clientes, porém, presentemente o número reduziu em quase 90 porcento. Ou seja, antigamente conseguia amealhar por dia, em média, 100 a 250 meticais, mas hoje consegue apenas 30 meticais e com muita sorte. “Actualmente, existem muitos sapatos à venda a preços acessíveis. Com apenas 50 meticais, consegues um par e o sapateiro já não pode cobrar o mesmo valor para colocar a sola”, diz.

Embora com o rendimento mensal diferente do guarda Artur Carnia, o sociólogo e director da Associação Nacional de Extensão Rural em Nampula (AENA), António Mutoua, é também obrigado a fazer algum (difícil) exercício de sobrevivência. Ao longo do mês, o seu gasto mensal com as despesas básicas é de 30 mil meticais. O valor é usado para a alimentação, as contas de água e luz, combustível para a sua viatura, mensalidades escolares dos seus filhos, e lazer.

Porém, apesar de a sua renda ser aparentemente “gorda”, o sociólogo recorre a algumas actividades alternativas ao seu emprego como venda de cerveja, peixe e a criação de frangos para garantir o sustento diário da sua família. “Nem sempre tenho dinheiro. Há vezes que até ao dia 20 já não disponho de uma quinhenta sequer no bolso devido ao elevado custo de vida a que somos sujeitos em Moçambique”, diz Mutoua afirmando ainda não compreender como sobrevivem as pessoas cujo rendimento mensal é de dois mil meticais.

O sociólogo considera o salário mínimo “uma aberração” porque acaba no mesmo dia em que o trabalhador recebe. “Um dinheiro sem valor é uma aberração, é triste. O grande problema neste país é o facto de não se avaliar os custos e benefícios, além disso, os rendimentos não estão a ser distribuídos de forma equitativa de maneira a criar espaço para que os que auferem os salários mínimos tenham o suficiente para suprir as necessidades básicas”, garante.

Mutoua diz ainda que as pessoas não devem e não podem viver apenas no luxo, razão pela qual se deve olhar para os preços dos bens alimentares e depois definir-se os salários.

“Na minha opinião, o Estado devia desenhar políticas que pudessem beneficiar o cidadão”, diz e acrescenta que se o Governo pudesse estipular um salário mínimo no valor de cinco mil meticais, a situação económica de muitas famílias moçambicanas estaria resolvida, bastando que o preço dos produtos alimentares não registasse subidas galopantes.

Conversámos também com João Machava, chefe de um agregado familiar constituído por quatro pessoas e trabalhador vinculado a uma empresa de seguros. Em paralelo, presta serviços a outras pequenas empresas de modo a aumentar o seu rendimento mensal. Por mês, ele ganha 15 mil meticais, montante com o qual tem de garantir alimentação para a sua família e pagar a renda de casa e as contas de água e luz.

Todos os meses, Machava é obrigado a usar a máquina calculadora de modo ajustar o seu rendimento às crescentes necessidades domésticas. No entanto, uma das formas de gerir o seu ganha- pão mensal, passa por um uso racional do dinheiro, despesas calculadas ao mínimo detalhe e definição dos produtos ou artigos básicos a serem comprados.

Há quem pense que poupar quando se tem algum suporte financeiro no bolso está-se a ser egoísta, mas o nosso entrevistado mostra-nos outra realidade, afirmando que “o dinheiro nunca é suficiente na vida, por isso, é preciso definir-se prioridades e saber-se economizar, de acordo com o salário que se aufere mensalmente, uma vez que posso abdicar de comprar vestuário e tomar uma cerveja, para adquirir alimentos e pagar a factura da luz, água, renda de casa e educação dos filhos”.

No mundo actual em que vivemos onde o nível de vida a cada dia que passa tende a agudizar-se, devido ao aumento dos preços de produtos de primeira necessidade e aliado ao facto de o alastramento sem precedentes da crise financeira mundial, Machava afirmou que “apenas sobrevive quem define prioridades na sua vida, onde questões ligadas ao lazer, organização de festas e outras questões desnecessárias são relegadas para segundo plano, porque não têm importância nas nossas vidas”.

A outra forma de se fazer um uso racional do salário passa, segundo Machava, por se reduzir os níveis de consumo por parte dos membros da família, usar-se menos água, e assistir-se à televisão em determinados períodos do dia. Dos 15 mil meticais que aufere como salário, cinco mil destinam-se ao pagamento da renda de casa, e outros cinco são usados para fazer o rancho.

O remanescente é dividido entre as contas de água e luz, e as despesas com o transporte e a educação dos seus dois filhos. Com o dinheiro que obtém dos biscates, reforça a alimentação, além de resolver algumas questões que vão surgindo diariamente a nível doméstico.

“O maior problema dos moçambicanos é que quando dispõem de algum dinheiro na mão perdem a consciência. A vida resume-se em beber e comprar alimentos de forma exagerada. Enquanto isso persistir continuaremos a lamentar que o salário é magro. É preciso que saibamos definir o que é pertinente nas nossas vidas e como fazer uso do pouco que ganhamos”, diz e acrescenta que “não obstante, temos de ser bons gestores do pouco que existe, economizar de modo a abdicar de uma cerveja, um sapato da moda, desde que se consiga investir na educação dos filhos e na criação de condições para que não falte a refeição diária e um abrigo condigno”.

Embora diga que o seu salário é insuficiente para suprir todas as necessidades da família, Machava comenta que tem procurado geri-lo da melhor maneira possível de modo a proporcionar ao agregado familiar uma vida aceitável com o pouco que ganha. “Não podemos viver no faz de conta, temos de colocar os pés no chão. A pobreza obriga a pessoa a impor limites, definir prioridades e andar com a calculadora no bolso para equilibrar entre o que tem e o que deve comprar”, diz.

O nosso interlocutor aconselha a todos os trabalhadores do sector público ou privado para que parem de reclamar e trabalhem em prol de uma vida aceitável, fazendo uso do exíguo salário, e definindo prioridades. “Troca um cinema, um teatro, um presente de artigo caríssimo, por um simples passeio ao jardim, verás que o gasto será menor e não terás motivos para depois resmungar”, concluiu.

O custo de vida é para todos

A tabela de preços de bens de consumo praticada nos principais mercados das cidades de Maputo e Nampula há muito que já está a inquietar os consumidores, que têm de se adaptar a essa realidade com tendência a deteriorar-se a cada dia. O preço dos bens de primeira necessidade naqueles locais torna-se insustentável, repercutindo- se no orçamento doméstico. Tanto as pessoas mais carenciadas como as que dispõem de alguma condição financeira sentem na pele os efeitos do custo de vida.

O sociólogo e director da Associação Nacional de Extensão Rural em Nampula considera que o nível de vida dos moçambicanos continua aquém do desejado pelo facto de a subida do preço dos produtos alimentares não ser acompanhada pelo aumento dos rendimentos mensais dos consumidores.

Pouco mais de 80 porcento dos moçambicanos são camponeses e têm o seu rendimento estimado em um dólar por dia para uma família composta por cinco a 10 pessoas. Entretanto, segundo o sociólogo, esta situação está a criar clivagens entre a população carenciada e as pessoas com uma certa condição financeira. “Em Moçambique não existe comida para os pobres e os ricos. Quando se vai para uma mercearia ou loja para comprar arroz ou mesmo óleo, os ricos e os pobres pagam o mesmo preço”, diz.

António Mutoua aponta que os ricos e os pobres comem pela mesma medida, apesar de na mesa do rico haver mais opções e a dieta dos pobres ser composta apenas por arroz ou farinha de milho. “Para um cidadão ou mesmo uma família viver precisaria no mínimo de cinco mil meticais”, diz, acrescentado que com o referido valor há condições básicas suficientes para uma pessoa viver sem precisar de recorrer a outras actividades.

Quando amanhece, os moçambicanos deixam as suas casas – e só regressam no fim do dia – à procura de meios para garantir pelo menos uma refeição por dia para os seus parentes. “Imagina uma família com o rendimento de um dólar (27 meticais) diário. Não é possível a um grupo de pessoas viver com esse valor porque no mínimo precisaria de 500 meticais diariamente”, afirmou o sociólogo.

Diante desta situação, Mutoua conclui que “vivemos num país em que as pessoas são obrigadas a fazer ‘ginástica’ para sobreviver”.

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Actualizado em Quinta, 03 Maio 2012 17:08
 
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